DÁDIVA E IRA DO TECNODEUS: DA TECNOUTOPIA À TECNODISTOPIA

Os anos 90 e 2000 eram de deslumbramento e esperança: a tecnologia vinha emancipar a humanidade, tornar eficientes, livres e horizontais todas as relações. Eliminar os gatekeepers, as distâncias, democratizar o conhecimento, levar a ciência e o esclarecimento para os quatro cantos da Terra. Foi uma nova contracultura: em vez do amor livre dos hippies, a conexão universal entre os humanos pela internet. Em vez de Woodstock, o Burning Man, no deserto.

Décadas depois, os egressos de movimentos como “software livre”, copyleft, mídias indepententes e quetais estão em posição reativa: a internet deu lugar a redes corporativas, a neutralidade de rede – condição sine qua non para uma internet realmente descentralizada e horizontal, suas promessas básicas -, foi dirimida mesmo onde ainda é formalmente reconhecida, como no Brasil, e as democracias ao redor do mundo são vítimas de ataques de manipulação de massas – fake news e robôs afetam decisivamente o resultado de eleições e explicam em parte a escalada de governos populistas de direita. Não há mais espaço, entre os democratas, para ingenuidades, para o deslumbramento tecnoutópico de décadas atrás.

Outros discursos, porém, assumem o expediente do futurismo rasteiro e paralisante: neoliberais, como Paulo Guedes, se apressam em explicar a implosão dos direitos sociais como uma inevitabilidade. A mecanização, a robótica, a inteligência artifical acabarão com o emprego, então nos restaria formalizar o subemprego. Companhias como uber, já um monopólio quase global (não houvesse versões locais na China e resistência democrática em alguns países ocidentais), atropelam regulações existentes em nome de “inovação”, sendo que seu conteúdo tecnológico é trivial, facilmente reproduzível: seu verdadeiro negócio é o lobby e a destruição de direitos.

Mesmo a extrema-direita racista se apropria de teses futuristas: o aceleracionismo, em sua versão de direita, embala movimentos racistas que já vem realizando ataques terroristas nos EUA. Alguns de seus adeptos vêm com bons olhos, ironicamente, o tecnoautoritarismo que emergiu do regime chinês.   Bilionários do Vale do Silício, como Peter Thiel, se aproximam dessas teses racistas. Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, não só combate na Terra a organização dos trabalhadores em sindicatos, como aponta para o espaço como o futuro possível: estações espaciais privadas, novos habitats para as elites de um planeta destruído, um blefe utópico, tecnicamente inviável para os “inovadores” que já não podem mais disfarçar o desastre que ajudaram a produzir em Terra com seu positivismo oportunista.

Comentaristas algo triviais como Noah Harari vaticinam: não há como escapar ao futuro tecnodistópico. Ninguém terá trabalho, como o dizem os neoliberais, gastaremos nosso tempo em jogos, realidades virtuais – que ele equipara, incrivelmente, a religiões, como se estas não ordenassem nossos modos de vida e sociabilidade no plano, digamos, terreno. É preciso dar boas vindas à Matrix, por antecipação. A estes profetas da aniquilação humana, o horizonte possível para o progressismo parece ser a renda universal: os tubos que nos alimentem enquanto imersos na Matrix. Uma pena que sejamos péssimas usinas de energia, justificativa de nossa sobrevivência maquínica na ficção.

Esquecem-se os tecnodistópicos de que a automação não pode substituir os trabalhos de cuidado, educação, pesquisa, arte, e tantos outros. Ou que não se trabalha por sobrevivência, apenas, mas por propósito, sem o que não se vive. E que a mobilização e inter-relação em diversas atividades é que pode manter coeso o tecido social, fazendo cidadãos se verem uns aos outros como necessários e parte de um projeto comum. Já temos sinais evidentes de que a receita de desigualdade, desemprego e políticas compensatórias tendem a minar a democracia e gerar comportamento antissocial: este não pode ser, jamais, o paradigma para uma esquerda humanista.

Esquecem-se os derrotistas, os profetas da aniquilação, que o poder ainda teme: nossa sociedade nunca foi tão verticalizada, desigual, as forças armadas nunca tão capazes de aniquilar à distância e, mesmo assim, a cada levante de jovens ao redor do globo, cada vitrine quebrada ainda leva pânico ao poder – que ainda é, sobretudo, uma ficção. E seu mais forte instrumento de intimidação, hoje, parece ser a mesma narrativa que, antes, foi vendida como panaceia: da tecnoutopia à tecnodistopia, os inimigos da democracia têm já sua nova totalidade. Que lança mão ora da promessa de paraíso na Terra, ora da ameaça do Apocalipse.

“The seemingly medical nature of the term “impostor syndrome” is also problematic, suggesting a psychological shortcoming on the part of those who suffer from it. But far from being the product of a pathology, what seems more likely is that impostor syndrome is a rather natural reaction of anyone from a working-class, disadvantaged or minority background to the various biases they face on a daily basis.

Consider the fact that while those who have been privately educated account for only 7% of the UK population, 65% of senior judges and a similar proportion of the current cabinet nevertheless went to private schools. The media and creative industries are even worse: according to a study published in 2018 and undertaken by Create London, in conjunction with sociologists from the University of Edinburgh and the University of Sheffield, only 18% of people working in music and the performing and visual arts grew up in a working-class household. In publishing ,it’s a pitiful 13%; in film, TV and radio, it’s only 12%. With this in mind, if you’re a state school graduate from a working-class background working in the media, then it’s understandable if you feel you are an impostor.

What far-reaching and harmful message are we sending out when we paint the natural reaction of working-class and marginalised people as evidence of some kind of “syndrome”? Some will say it’s only a word, not a medical diagnosis, but it represents an attempt to individualise a structural issue, and to place the burden of responsibility at the door of the undervalued, or excluded. This only adds to the list of things that working-class and marginalised people already have to contend with in the continuing struggle to achieve any kind of self-esteem.

When we think about “impostor syndrome”, there are several underlying biases we should address: the unquestioned deference towards the displays of confidence taught by private schooling, not to mention the painting of confidence-verging-on-egoism as “normal” and “sane”, while everyone else is painted as deficient.”

https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/16/impostor-syndrome-class-unfairness?CMP=share_btn_fb

https://www.abc.net.au/news/science/2019-09-20/birds-collapse-us-bees-ecology-environment/11520008?fbclid=IwAR2U9oHElah5Lop0BClb4tRXHrYGUar7rvkakYQ0X0TVm_22NbKpDmGd5HQ

https://blogdojuca.uol.com.br/2019/10/a-diferenca-entre-o-corinthians-e-a-rinite/?utm_source=facebook&utm_medium=social-media&utm_campaign=esporte&utm_content=jkfouri&fbclid=IwAR1mecuoLn12fms9CasY_CD1labLurm8lGKnXt9aVoE1_tEXFs28RznwNDI

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2019/10/13/nossa-luta-contra-bolsonaro-e-a-mesma-que-fizemos-contra-lula-e-dilma-diz-cacique-raoni.htm?utm_source=facebook&utm_medium=social-media&utm_campaign=noticias&utm_content=geral&fbclid=IwAR3zUgI451slucExv1YfbTzf1CqtZ_-J2yucIgXe5dQhNNtHlRB-R9c-u8c

http://marcozero.org/a-reducao-da-politica-a-uma-dinamica-de-resistencia-e-o-fim-da-politica-critica-safatle/?fbclid=IwAR1V-fxcbQXBmJpduDgco7r2gKDJEnTCSWlIEPM6aMX4GQ5U9Upn3-Mok2A

Forwarded from rafaevangelista
https://telegra.ph/Documentos-contradizem-vers%C3%A3o-de-ministro-sobre-amplia%C3%A7%C3%A3o-de-base-de-Alc%C3%A2ntara-10-12
Forwarded from rafaevangelista
“Está pronta até mesmo uma campanha de marketing, produzida pela pasta de Marcos Pontes, a ser divulgada em redes sociais para convencer os moradores a aprovarem as remoções. Com a hashtag “Alcântara Ajudando o Brasil”, a campanha mostra um morador negro sorrindo ao lado de textos como: “Alcântara, gerando benefícios a todos!””
Forwarded from rafaevangelista
“O governo também admite, citando um laudo antropológico, que o município de Alcântara foi fundado em 1648 e que o Maranhão chegou a ter 133,3 mil escravos. Alcântara hoje tem 21,8 mil moradores, dos quais 77% se declararam quilombolas. Para os moradores, agora há uma reedição do que viveram a partir de 1983, quando a ditadura militar (1964-1985) realizou a remoção de mais de 300 famílias de 24 povoados para a criação do núcleo central do CLA.”
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““Havia tortura? Havia sim, mas era pontual, isolado. Depois da intervenção federal, é generalizado. Os servidores não estão conseguindo dormir. Os gritos ficam na nossa cabeça”, disseram funcionários do governo do Pará que atuam nas prisões. “Não é questão de apreço, de gostar dos presos, é uma questão de humanidade. Parece que fizeram uma seleção de psicopatas, e deram o direito a eles se regozijarem nos presos”.”

Que chocante essa matéria do O Globo sobre a tortura generalizada no sistema prisional paraense após a intervenção federal. Há relatos horríveis colhidos pelo MPF, OAB, e até um órgão vinculado ao ministério da Damares.

E fica pior pois o Ministro da Justiça, sem qualquer investigação, sai em defesa dos agentes!

https://oglobo.globo.com/brasil/mpf-denuncia-tortura-justica-afasta-chefe-da-forca-tarefa-federal-em-presidios-do-para-24002976