Há um tempo vi na TV um sujeito muito paulista, muito constrangedor, que fazia cosplay de Indiana Jones. Partia do clichê do documentário de vida animal mas bancando o desbravador valentão, em vez de, vá lá, um pesquisador. O programa ia para alguma região remota, encontrava algum bicho exótico, e então nosso heróe NECESSARIAMENTE METIA A MÃO NELE.

Tá vendo essa lesma? Eu pego na mão. Esse escorpião? Manipulo como fosse origami. Sapo gosmento pra mim é brinquedo.

Era a paródia última do mito ocidental do domínio sobre a natureza.

E ele decerto é patético o tempo todo, mas esse episódio que eu assisti era bom demais pra ser verdade. Era na Amazônia, acho que alto amazonas. Primeiro ele pegava um barqueiro, um ribeirinho, pra levá-lo até uns igarapés. E procurava alguma coisa no meio das plantas aquáticas, o barqueiro só olhando. Até que grita: “Aqui!”. E aponta a cobra, e falam seu nome, e ele finalmente a puxa para o barco. Suspendendo a bicha pelo pescoço (ou sei lá por onde, já que cobra é só pescoço), pergunta ao barqueiro:

– O senhor já viu uma assim, tão de perto?

Fleumático, o ribeirinho responde:

– Nunca vi necessidade disso.

A segunda metade do programa era com uma tribo indígena. Falou brevemente sobre a tribo, nada com estofo, nada que prestasse, e partiram para o mato em expedição. Os índios levavam cestos para catar uns vermes em casca de árvore. Chegaram à tal árvore, começaram a catação, o paulista ali atrapalhando enquanto fingia ajudar, um clássico. Ao fim, cestos cheios, todos sentados em círculo, missão cumprida, etc. O paulista mete a mão no cesto e come uns vermes, que se retorcem na mão:

– Vocês sabiam que dá pra comer assim, cru?

Os índios apenas olham, meio que rindo:

– Dá… Mas bom mesmo é frito.