Nas contas do sistema político, Bolsonaro se revelou um ótimo negócio. O establishment fez do limão uma laranjada. De posse de sua certeza de que Bolsonaro não consegue ampliar sua base de apoio, o sistema político entende que Bolsonaro é o adversário ideal.

Para quem pretende implementar uma agenda liberal (mesmo que não seja a agenda desvairada de Paulo Guedes), basta usar a desarticulação política deliberada do governo para impor sua pauta. E basta aguardar a próxima eleição presidencial para recompor as forças centristas e derrotar um candidato que consegue chegar ao segundo turno, mas não consegue agregar votos adicionais para ultrapassar a barreira de um terço do eleitorado. Esse é o raciocínio de quem, à direita, está parasitando o governo Bolsonaro para implantar sua própria agenda. Da mesma forma como Bolsonaro se utiliza da direita para se manter presidente. A relação entre Rodrigo Maia e Jair Bolsonaro não é de oposição, é de simbiose.

O presidente do STF Dias Toffoli Foto: Agência O globo
O presidente do STF Dias Toffoli Foto: Agência O globo
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O mais espantoso é que a faz oposição à esquerda faz exatamente o mesmo raciocínio eleitoral – apenas a relação não é simbiótica, é de conveniência. Bolsonaro seria o candidato ideal para ser derrotado em um segundo turno. Sem a facada, não teria como ter ganho a eleição de Fernando Haddad, é essa a ideia. Basta deixar que a implantação da agenda liberal traga efeitos nefastos e apostar que os mais de vinte por cento que votaram em Bolsonaro e já se arrependeram venham para uma candidatura de esquerda capaz de chegar ao segundo turno. O PT aposta em uma tática semelhante à de Bolsonaro: consolidar o apoio que já tem para se garantir em um segundo turno. Ciro Gomes aposta em já fazer acenos ao eleitorado que abandonou Bolsonaro, mas que não quer votar no PT.