Deve ser um sintoma da fase terminal do debate público a novelização, a pessoalização: toda e qualquer causa parece precisar de um mártir, de uma narrativa espetacular. Pelo contrário, é exatamente assim que se pode fragilizar uma causa que é de muitos – quase todos. O debate em si é rebaixado, assim como os verdadeiros heróis, aqueles que produzem os melhores argumentos – científicos ou políticos. Onde estão os cientistas, climatologistas? Onde estão Naomi Klein, AOC e Bernie Sanders com seu Green New Deal? Eles, sobretudo, porque entendem que essa causa é sobretudo política e dum viés classista: os efeitos catastróficos da mudança climática são conhecidos pela indústria do combustível fóssil há décadas, e conscientemente soterrados com desinformação e lobby. Tampouco a direita, a elite no poder, o capitalismo financeiro os desconhecem: apenas os acomodam confortavelmente em suas equações de manutenção da hegemonia. O problema, do viés dos poucos no andar de cima, pode ser resolvido como sempre: com desigualdade. Eles não terão a dificuldade dos pobres de Bangladesh ou New Orleans para se deslocar. Eles lucrarão negociando terras que se tornarão agriculturáveis, na Sibéria, Canadá ou Groenlândia. Eles verão tudo de confortáveis terraços, enquanto milhões guerreiam por água ou são desalojados por ela.
Aprendam a driblar o espetáculo e a impostura midiática: a arma possível para os debaixo ainda é somente a união classista, a política.